"Dever de Memória" traça um percurso temporal de outubro de 2017 até hoje

2018-10-10

"O que é singular nesta exposição é o percurso temporal. Quem visitar esta exposição poderá rememorar a noite de 15 de outubro, mas fazer também uma viagem, essa menos conhecida - porque as imagens mais mediáticas foram dos incêndios e do rescaldo - aos meses que se seguiram e àquilo que são imagens de hoje, dos nossos dias", revelou à Lusa Jorge Sobrado.

Numa visita à Quinta da Cruz, Viseu, onde a exposição está a ser montada, o vereador desvendou um pouco aquilo que poderá ser visto nesta exposição, que inaugura na noite de 15, "a simbolizar a tragédia de há um ano", com a presença do Presidente da República.

A mostra pode ser vista até 31 de dezembro, em Viseu, uma vez que "não está descartada uma possível itinerância a outras regiões" do país.

A exposição é dos fotojornalistas Nuno André Ferreira, residente em Viseu há 12 anos e colaborador do grupo Cofina e da agência Lusa na região de Viseu, e de Adriano Miranda, residente em Aveiro, mas a trabalhar diariamente no Porto, no jornal Público, há 22 anos, onde começou e permanece.

A par da exposição há um livro que tem mais de uma centena de fotografias e tem a acompanhar textos de cinco jornalistas, também alguns a trabalharem para jornais nacionais a partir de Viseu, Sandra Ferreira, Luís Oliveira e Tiago Vergílio Pereira, e outros residentes fora da região, mas que acompanharam, igualmente, o incêndio de outubro, como é o caso de Patrícia Carvalho e Paulo Moura.

"A ideia era a de que as fotografias fossem um alerta para que nada daquilo se repetisse, um memorial a todos quantos morreram, no fundo era uma homenagem aos que morreram e para que não caíssem no esquecimento", explicou Adriano Miranda à agência Lusa.

Neste sentido, a ideia do livro é, no entender de Adriano Miranda, "o real dever da memória, porque irá para as bibliotecas e ficará nas mãos das pessoas para mostrar a terceiros, no futuro, a quem nem soube o que aconteceu e poderá ver no livro que é um documento".

"Deixou de ser um catálogo, que não gosto da palavra, de uma exposição fotográfica, para ser um livro documento que tem na exposição um complemento", considerou Adriano Miranda que, no ano passado, acompanhou os incêndios de Pedrógão Grande, de Alijó, do pinhal de Leiria e o da região Centro, a 15 de outubro.

A exposição começa no exterior do edifício principal da Quinta da Cruz, com um túnel escuro e com várias fotografias, "precisamente para levar as pessoas à noite do incêndio", e depois vão surgindo fotografias que foram tiradas ao longo dos meses seguintes e que mostram, segundo Nuno André Ferreira, um "contraste entre o que morreu, a natureza negra, e a vida quotidiana que regressou a uma normalidade possível".

Uma normalidade que, segundo o vereador, revela as características dos beirões, "a resiliência de quem sobreviveu e de quem está no território" e que surge nestas imagens que "têm uma qualidade artística".

"São imagens de fotojornalistas, e esta é também uma prova de que o fotojornalismo não é destituído de criatividade e de visão artística e pessoal. Há também uma visão subjetiva e cada um dos autores traduz a sua sensibilidade própria" defendeu Jorge Sobrado.

Uma sensibilidade e um trabalho que, segundo os dois autores, apresentam "não como fotografia artística nem informativa, mas como uma fotografia documental, porque é o que elas são, fotografias documentais".

A mostra fotográfica "Dever da Memória" que tem como subtítulo "Da infâmia à esperança", está patente entre 15 de outubro e 31 de dezembro de 2018, e o livro/catálogo da exposição tem uma edição limitada de 1.000 exemplares e o dinheiro da venda, explicou Jorge Sobrado, "reverte na totalidade para os Bombeiros Voluntários de Viseu que estão a atravessar uma fase financeira complicada".

"A ambição é o projeto ganhar asas e que venha a ter lugar uma segunda edição que permita a acessibilidade do país a esta publicação e à mensagem desta obra para que perdure na memória", defendeu o vereador da Cultura da Câmara Municipal de Viseu.

Nos jardins do edifício principal, na Quinta da Cruz, estarão também duas obras do artesão Sérgio Amaral, que é de Mangualde e que nos incêndios perdeu o seu ateliê, e ainda no mês de outubro será instalada uma terceira obra.

"É uma iniciativa paralela, mas faz todo o sentido que um artista tão relevante da região, um dos maiores ceramistas portugueses do artesanato de autor, tendo sido tão dramaticamente afetado, tivesse oportunidade de ter aqui um espaço para instalar algumas das suas esculturas e obras", considerou Jorge Sobrado, que entende que "é mais um contributo da Câmara de Viseu às vítimas dos incêndios".

(RTP)