Mortos infetados e suspeitos partilham camião em Viseu

2020-04-27

Mortos infetados e suspeitos partilham camião em Viseu

Agentes funerários recusam vestir os defuntos que testam negativo à Covid-19 por entenderem que correm riscos.

É um grito de indignação dos agentes funerários que, para não correrem riscos, sentem-se obrigados a dar o mesmo tratamento a quem morre. Com ou sem Covid-19. Estes profissionais estão a recusar vestir os defuntos que testaram negativo. Isto porque, enquanto foram suspeitos, estiveram a aguardar o resultado junto dos casos confirmados, no mesmo camião-frigorífico, junto à morgue do Hospital de Viseu.

"Não podemos agir de outra forma quando vamos buscar os corpos não infetados ao mesmo camião onde estão os que morrem com o vírus. ", lamenta José Lopes, diretor técnico da Funerária Viseense, que dá voz à indignação.

Só este profissional já foi levantar "cinco a seis " corpos ao camião, que acabaram por testar negativo. "Como não estavam infetados, as famílias pedem-nos para os vestirmos, até porque sem Covid-19 é possível abrir a urna e despedirem-se. Como estiveram no mesmo camião não podemos satisfazer o pedido porque é um risco ", explica José Lopes. Para este profissional, a solução seria colocar os corpos suspeitos num local diferente.

Quem morre no hospital com Covid-19 ou com suspeitas é tratado da mesma forma. O corpo é isolado num saco duplo e sem roupa, trabalho que é feito pelos profissionais de saúde. Aos agentes funerários resta-lhes retirar os corpos do camião para a urna, que não volta a ser aberta.

"As famílias ficam revoltadas quando os resultados dão negativo, uma vez que nem sequer podem vestir os entes queridos, dando alguma dignidade. É doloroso que baste que nos funerais só os parentes mais próximos possam estar no último adeus, para evitar aglomerações", adianta José Lopes.

A Administração do Centro Hospitalar Tondela-Viseu, através do gabinete de comunicação, limitou-se a dizer que "o hospital está a cumprir as regras da Direção -Geral da Saúde". A DGS recomenda que "não deve haver lugar à preparação do corpo de pessoas infetadas ou suspeitas de Covid-19 pelas agências funerárias, dado que já foi preparado (limpo e seco) pela equipa de saúde/autópsia". O organismo aconselha o mínimo manuseamento e a cremação dos corpos.

Doentes com atendimento separado

Uma unidade modular de triagem de casos suspeitos de Covid-19 foi instalada junto à Urgência do Hospital de Viseu. É aqui que os doentes suspeitos de terem contraído o vírus passam a ser atendidos, separados dos restantes pacientes. O equipamento foi oferecido por uma empresa industrial de Nelas, a Purever Industries , que trabalha com produtos de isolamento e refrigeração.