Kenny Rogers, “lenda” da música country morreu em casa, de causas naturais, com 81 anos

2020-03-21

Kenny Rogers, “lenda” da música country morreu em casa, de causas naturais, com 81 anos

Kenny Rogers, “lenda” da música country conhecido por êxitos como “The Gambler” e “We’ve Got Tonight” morreu em casa, de causas naturais, com 81 anos. Vencedor de três Grammys, foi figura de destaque nos anos 70 e 80 e só deixou de atuar aos 79 anos.
O cantor “faleceu pacificamente em casa, de causas naturais, com cuidados paliativos e rodeado pela sua família”, lê-se num comunicado escrito pelo seu agente, Keith Hagan, citado pela imprensa internacional.
“Kenny Rogers deixa uma marca inesquecível na história da música americana”, notou o agente, acrescentando que “as suas canções tocaram as vidas de milhões de pessoas em todo o mundo”.
Construiu carreira seguindo as marcas da country, mas não foi por aí que começou. Texano, nascido em Houston em 1938, deixou-se levar primeiro pelo rock’n’roll e pelas influências psicadélicas. Fez parte de vários grupos, até que no início da década de 70 se lança numa carreira a solo. Aqui já com a country como bandeira, mas atravessando-a sempre com uma sensibilidade pop que haveria de levar-lhe o nome até junto de um público vastíssimo.

Foi ele um dos primeiros nomes daquele género tradicional americano a encher grandes arenas ao vivo e foi essa capacidade de crossover que o transformou numa estrela global — quando a country fica quase sempre confinada ao mercado americano, Kenny Rogers fazia parte das coleções de discos de muitos pelo mundo fora.
Dois grandes exemplos dessa gestão de fronteiras estilísticas:
O primeiro com “We’ve Got Tonight”. A canção é de Bob Seger, um dos grandes trovadores americanos, músico on the road, uma espécie de camionista das canções, que nunca quiser ser uma super estrela mas que tem os seus temas cantados por tudo o que é saudável invejoso; a voz feminina é de Sheena Easton, escocesa, adaptável a qualquer formato desde que orelhudo, a tal que deu voz ao enorme sucesso que foi “Morning Train (Nine to Five)”; e Kenny Rogers, cowboy mascarado de gentleman da cidade:
O segundo, outro sucesso inegável, “Islands in the Stream”, o dueto que Kenny Rogers assinou com Dolly Parton, figura insuperável da country, da cultura popular americana e da artista-mulher numa terra de homens e tradições complicadas de recusar e ultrapassar. Como sempre, o pequeno grande twist de uma história que nunca foi “apenas” country: “Islands in the Stream” foi composta por Barry, Robin e Maurice Gibb, os irmãos que formaram os Bee Gees ou, dito de outra forma, uma das equipas de escrita de canções mais exemplares da história da pop.
Baladeiro profissional e contador de histórias habilidoso, Kenny Rogers nunca foi o artista country óbvio. Foi agregador de massas, uma espécie de crooner das pradarias, com bom sotaque do sul, sempre pronto a adaptar os formatos, os arranjos, o suporte instrumental, sempre disposto a que a produção fosse a mais acertada para poder chegar onde normalmente nenhum cowboy chegava (incluindo a sua vida extra-música, sobretudo o que dizia respeito ao seu lado de empresário, ele que no início dos anos 90 lançou uma cadeia de restaurantes, os Kenny Rogers’ Roasters). Por isso ficou na história simplesmente como “Kenny Rogers”. O principal rótulo do senhor Rogers era ele próprio, e isso tinha tanto de bom como de duvidoso, dependendo dos gostos (e lembrando temas como “All My Life” e respetivo piano):
Muito longe de conseguir unanimidade entre críticos, Kenny Rogers é, contudo, reconhecido como exemplo notável de construção de carreira contras as normas e as previsões. Um percurso a solo que é iniciado perto dos 40 anos, numa género que vivia (e continua a viver) muito da juventude, da imagem de liberdade, irreverência e indisciplina (controlada), a country absorveu-o, mas não na totalidade. Foi integrado no Country Hall of Fame, mas não nas paredes da glória do Grand Ole Opry, a sala mais importante da música country, em Nashville, onde atuou em diferentes ocasiões.
Por alguma razão, ou sem razão nenhuma em especial, Kenny Rogers nunca pareceu incomodado com abordagens menos gloriosas vindas de fora, dirigidas ao seu trabalho. Porque provavelmente nunca a procurou, pelo menos não de forma prioritária. Diversificou o seu percurso, foi várias coisas ao mesmo tempo, teve lugar no cinema, foi estrela por conta própria, um apostador que ganhou os pontos todos que procurou.