Isaura virou a página da Eurovisão, mas continua orgulhosa do seu jardim

2018-06-11

Isaura virou a página da Eurovisão, mas continua orgulhosa do seu jardim

“De repente perco a minha avó, que era a minha melhor amiga. Como é que se lida com isso?” Sentada na receção do Hotel Fenix Music, em Lisboa, onde, nesta terça-feira, fez um showcase privado de apresentação do seu primeiro álbum, Isaura contou ao Observador que passou três meses sem saber como responder a esta pergunta. Três meses em que não fez “absolutamente nada”, apesar de ter começado a compor um disco meio ano antes. A reação à perda tornou Human completamente diferente do que tinha previsto quando começou a fazer o disco. E inspirou também a composição de “O Jardim”, tema que dedicou à avó, Zaida Lourenço, e que levou à última edição do Festival Eurovisão da Canção.

Quando começou a trabalhar no álbum, a cantora e compositora, atualmente com 28 anos, era já uma promessa da música portuguesa. Isaura já tinha passado por um programa televisivo, a “Operação Triunfo”, e editado uma primeira coleção de cinco canções originais. A aposta era já na canção pop eletrónica, à época muito marcada pelos sintetizadores. Eram canções de tom íntimo e delicado, mas com pulsação de pista de dança.
Para o álbum, Human — que poderá ser ouvido já a partir desta sexta-feira, dia 8 de junho — a ideia era incorporar elementos de outros géneros musicais, como o R&B digital e o hip-hop, mas também fazer canções de andamento rápido, algo festivas, aludindo a temas pessoais, como o seu percurso até aqui (“Don’t Give Up” e “High Away”), a dificuldade em gerir o tempo (“Busy Tone”) e a relação com o outro (“I Need Ya”).
Algumas dessas canções iniciais já estavam estruturadas quando Isaura perdeu a avó e acabaram por ficar no álbum. Mas o “lado B” do disco, como a cantora lhe chama, foi feito durante o último ano e reflete essa perda. Do sétimo tema (de 14) em diante, as canções são mais etéreas, menos luminosas e com alguns momentos de catarse. E os próprios títulos são disso elucidativos: “I Keep Persisting” (com participação do rapper Prof Jam), “I Miss You” e “Gone Now”, por exemplo.“É-me natural usar a música como expressão do que se passa comigo, portanto foi natural começar a fazer outras canções”, explicou ao Observador a autora de “O Jardim”. É que a Isaura aconteceu “uma coisa com que toda a gente se identificará”: estava na “sua vida”, aconteceu algo que não planeou e teve “de lidar com isso, fazer o melhor com o que tinha.” “Tentei pegar em canções mais uptempo [de ritmo acelerado] que tinha pendentes e não consegui, não me apetecia fazer aquilo, não era o que estava a sentir, não tinha vontade”, revelou durante a conversa.

Se o luto acabou por ser a causa da dissonância entre primeira e segunda metade de Human, também levou Isaura de volta a um estilo de composição que lhe é mais confortável. Para as canções menos luminosas, requisitou menos o contributo de outros produtores (Diogo Piçarra, Karetus, Lhast e Fred Ferreira foram alguns dos que trabalharam nos arranjos do álbum) e assumiu a tarefa ela mesma. Precisamente porque as canções “mais nostálgicas, mais melancólicas” são-lhe “mais naturais”.

“Quando estou cheia de energia, a explodir de contente, não me apetece fazer música. Vou fazer outras coisas, estar com os meus amigos, dar uma volta. Quando procuro mais a música é quando estou mais pensativa, mais calminha. Embora vá contrariando isso. Pelo que estava a sentir, achei que fazia mais sentido ser eu a desenvolver aquelas texturas, indo buscar outros produtores para fortalecerem o lado mais rápido, mais pop, talvez um bocadinho mais comercial do álbum”, disse.

(Observador)