Chamaram-lhe “Sinatra do fado”: Carlos do Carmo estreou-se em Nova Iorque

2018-04-16

Chamaram-lhe “Sinatra do fado”: Carlos do Carmo estreou-se em Nova Iorque

As comparações com Frank Sinatra não são dado novo para Carlos do Carmo. Fã assumido do crooner americano, o fadista português até já fez as vezes do intérprete de “Fly Me to the Moon” e “New York, New York” em 2010, quando cantou no Pavilhão Atlântico (hoje, Altice Arena) as canções que Sinatra celebrizou ao lado da orquestra que o acompanhou nos anos 1950 e sobretudo 1960 (a Count Basie Orchestra). No passado fim-de-semana, Carlos do Carmo estreou-se em palcos nova-iorquinos aos 78 anos e o nome de Frank Sinatra voltou a surgiu, num artigo publicado pela NPR, a rádio pública norte-americana.

O Sinatra foi o melhor fadista que eu já ouvi. Estou a falar a sério. Vocês já o ouviram. A mesma canção transfigura-se de disco para disco. Nunca é igual. Isso é fado”, disse Carlos do Carmo ao meio norte-americano.

As comparações entre os crooners da canção americana como Frank Sinatra e o fadista, que há quatro anos tornou-se o primeiro português a vencer um prémio Grammy Latino de Carreira, são feitas também pelo musicólogo português (autor do premiado livro Para uma História do Fado) Rui Vieira Nery, que afirma à NPR que Carlos do Carmo “absorveu a tradição, mas posteriormente processou-a à sua maneira e teve sempre muita curiosidade acerca das possibilidades de interseção do fado com outros géneros musicais”.

A rádio norte-americana diz que Carlos do Carmo pegou na abordagem de Sinatra e aplicou-a aos seus próprios discos, explicando que, até ao aparecimento do fadista (na década de 1960), o fado era habitualmente interpretado somente por um cantor e dois guitarristas. Revolucionário, o autor dos discos Um Homem na Cidade e Margens “trouxe a orquestra” e convidou músicos externos ao fado para compor para ele, explica a NPR. “O Carlos foi fundamental para as pessoas perceberem que o fado também pode ser uma canção de intervenção, de protesto”, apontou por sua vez a diretora do Museu do Fado, Sara Pereira, a propósito das conotações que o género musical teve enquanto canção do regime salazarista.

Vivemos numa ditadura durante quase 50 anos. Havia censura e, quando se canta com censura, não é possível expressarmo-nos verdadeiramente. Eu vivi isso, sei do que estou a falar. É terrível, humilha-te. Foi quando eu e o meu bom amigo Ary dos Santos, que foi um poeta popular muito, muito bom, tivemos uma ideia: vamos fazer um álbum sobre Lisboa em liberdade”, lembra Carlos do Carmo. O álbum seria Um Homem na Cidade, editado em 1977, que se tornou um marco na história do fado pós-Estado Novo.

No artigo em questão, a rádio pública norte-americana destaca ainda o facto do fado ser “muitas vezes chamado de ‘os blues’ portugueses” e dá a palavra ao especialista, Carlos do Carmo: “As pessoas pensam que o fado está só ligado a sentimentos tristes. Não é verdade. Há fado menor — fado triste em tom menor –, fado alegre e fado verdadeiramente alegre, cantado em tom maior. O fado corrido é um exemplo de fado verdadeiramente alegre, é algo que se pode dançar e que tem de ser cantado com um sorriso na cara. Para mim, o fado é vida, é amor, é toda a minha vida, é conseguir atingir os meus sonhos, é o amor que tenho pela minha terra, pelo meu país“.

No festival do fado de Nova Iorque, que começou a 23 de março e terminou no último domingo, 8 de abril, atuaram ainda Ricardo Ribeiro, António Zambujo e Lula Pena. O espetáculo de Carlos do Carmo — que aconteceu no sábado, 7, na conceituada sala nova-iorquina The Town Hall — foi intitulado de “As lendas do fado” e contou com participação de Celeste Rodrigues, irmã de Amália Rodrigues de 95 anos que já cantou com Madonna em Lisboa e que passou a última passagem de ano em Nova Iorque, precisamente com a cantora de “Like a Virgin”.

(Observador)